21 de abril de 2014

O corpo em que nasci [Guadalupe Nettel]


Ela nasceu com uma mancha branca na córnea direita que tornava sua visão borrada e lhe dava aspecto estrábico. O uso de curativos sobre o olho foi um verdadeiro suplício que marcou a primeira infância da menina mexicana.

Tida por si mesma como uma espécie de Gregor Samsa, a autora e protagonista deste relato autobiográfico é estranha aos demais e a si própria. Em O corpo em que nasci, Guadalupe Nettel narra sua infância e juventude de maneira muito direta, inserida em uma vida marcada por contradições e pela baixa estima de si mesma.

Vida repleta também de descobertas. Do próprio corpo, quando criança, nas escadas de serviço do prédio em que vivia; mais adiante, do amor e das relações com o sexo oposto. De diferentes culturas e classes sociais na escola, durante os anos vividos em Aix-en-Provence, no sul da França, onde conheceu outros estrangeiros – vários deles mantidos “à margem” pelos franceses. Do submundo dos boêmios e artistas, em contraste com a juventude burguesa do liceu franco-mexicano que frequentou ao retornar ao México.

Sendo ela mesma uma freak, sua prosa busca nos aproximar de outros outsiders, a quem aprendemos a admirar – eles são, de fato, mais interessantes do que toda a massa dita “normal”. Dotada de uma personalidade forte, mas algo introspectiva e até antissocial, a protagonista revela detalhes que, de tão preciosos, ganham aspecto quase lírico na mente do leitor. Como, por exemplo, a existência de pessoas que adquirem importância vital em algum momento de nossas vidas, ainda que nunca cheguem a tomar conhecimento disso. (Tomei aqui a liberdade de dizer “nossas” porque esse tipo de evento não é raro em minha vida, e imagino que não deva ser na de vocês.)

Filha de pais bastante liberais, a convivência forçada com o conservadorismo da avó não contribuiu para amenizar a distância da mãe e a falta de notícias do pai. A senhora – estava mais para uma velha saída do século XIX, segundo Guadalupe – exercia distinções de gênero entre a menina e o irmão de forma até impiedosa.

Durante a infância nos anos 70 e a juventude na década de 80, a narradora enfrentou o desafio de aprender a aceitar a si mesma quando os demais pareciam não aceitá-la. A época considerada dourada para a maioria foi para ela uma jornada – pontuada por descobertas, mudanças e incertezas – rumo ao autoconhecimento e à reconciliação consigo mesma.

Por conter referências que vão desde García Márquez até Almodóvar, passando por The Cure e Luis Buñuel; pela prosa irresistível; ou simplesmente por se tratar de um livro impossível de largar: O corpo em que nasci merece ser lido em algum momento da vida – o quanto antes, se possível.

O corpo em que nasci faz parte da coleção OTRA LÍNGUA, lançada em 2013 pela Editora Rocco e que traz autores que compartilham a mesma língua: o espanhol latino-americano.

LEIA PORQUE...
A prosa conquista pela sinceridade, ainda que, segundo a própria autora, as interpretações sejam inevitáveis. Rico em cada aspecto e detalhe.

Para aqueles que dirão “ah, mas não curto biografia...”, este aqui tem ares de ficção - baseada, claro, na vida da escritora.

DA EXPERIÊNCIA...
Lembra quando falei que Águas-fortes cariocas foi o melhor que li da coleção Otra Língua até agora? Então, O corpo em que nasci superou! E digo mais: este pequeno de duzentas e poucas páginas já entrou para os meus três favoritos do ano (salvo se acontecer algo estrondoso e caírem livros muito, muito extraordinários em minhas mãos).

FEZ PENSAR EM...
“A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada”. O conto, do Gabriel García Márquez, é lido e apreciado às escondidas pela protagonista, que encontra nele um pouco de si.

Título: O corpo em que nasci
Título original: El cuerpo en que nací
Autor(a): Guadalupe Nettel
Tradução: Ronaldo Bressane
Editora: Rocco (coleção Otra Língua)
Edição: 2013
Ano da obra: 2011
Páginas: 224
Onde comprar: Americanas.com | Submarino | Livraria Cultura | Livraria Cultura (e-book) | Amazon (edição Kindle)

18 de abril de 2014

Quote da quinzena #6


É da natureza das coisas acabar mal. Era preciso começar por não começar. Saber parar antes que começasse.

Não se deve tocar em nada, sobretudo não limpar, desinfetar, esterilizar o rico adubo onde o amor nasceu, ordenar e desequilibrar as relações orgânicas nas quais ele desabrocha.

Não gosto da psicologia de suas profundezas. Parece que o que perdemos uma vez, somos condenados a perdê-lo sempre indefinidamente. Parece que os primeiros caminhos que abrimos, deles não saímos, ficamos dando voltas neles para nos encontrarmos. Como doentes... Resultado, eu como que calei minha própria voz. Não me ouvem mais.

“Diga-me algo com tato ou mato!...”

Baixo Calão, de Réjean Ducharme.


16 de abril de 2014

5 motivos para ler Haruki Murakami


Filho do pós-guerra, Haruki Murakami nasceu em 12 de janeiro de 1949, em Kyoto, Japão. Cresceu em Kobe e, mais adiante, concluiu seus estudos universitários em artes dramáticas na Universidade de Waseda. Após a faculdade, Murakami abriu um pequeno bar de jazz em Tóquio – o Peter Cat – e o manteve durante sete anos.

A inspiração para começar a escrever seu primeiro livro surgiu de repente, enquanto assistia a um jogo de baseball entre os Yakult Swallows e o Hiroshima Carp. Naquela mesma noite ele começou a escrever.

Após um tempo na Europa, Murakami morou nos EUA por alguns anos com sua esposa, e lá foi professor na Universidade de Princeton. Também ensinou na William Howard Taft University.

Já no campo da escrita, o escritor tem como influências literárias os americanos Raymond Chandler, Kurt Vonnegut e Richard Brautigan.

Cinco motivos para ler um dos autores mais importantes da literatura japonesa atual? Confere aí:

Fan art de 1Q84 (peguei daqui)
1. Popular e bastante admirado pelos jovens, Haruki Murakami também caiu no gosto da crítica. O escritor coleciona prêmios, entre os quais o Prêmio Literário Yomiuri, concedido a importantes nomes da literatura japonesa. Ganhou o Prêmio Franz Kafka e o Frank O’Connor International Short Story Award, entre outros. Murakami também já concorreu algumas vezes ao Prêmio Nobel de Literatura, porém não saiu vencedor – ainda.

2. A prosa de Murakami conquista. Impossível não se deixar envolver por suas trama e personagens. Além das referências pop e algo de filosofia, a presença do surreal é uma constante em seus livros. O autor mistura elementos fantásticos aos eventos mundanos, fazendo com que se crie mistérios e caraminholas na mente de seus protagonistas – e na do leitor também!

3. O escritor japonês é fã de jazz e é adepto da corrida como esporte – ele até corre maratonas.

4. Com fortes influências ocidentais, Haruki Murakami traduziu para o japonês diversas obras de autores americanos, como F. Scott Fitzgerald, John Irving, Raymond Carver, Raymond Chandler, e outros.

5. Suas histórias possuem alguns elementos em comum, como música clássica e gatos. A existência de mundos paralelos e até certa fixação por orelhas também são aspectos que encontramos nas tramas.

PRINCIPAIS OBRAS:
Norwegian Wood (1987)
Dance Dance Dance (1988)
Minha Querida Sputnik (1999)
Kafka à beira-mar (2002)
Após o anoitecer (2004)
Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007)
1Q84 (2009-2011)

14 de abril de 2014

Azul é a cor mais quente [Julie Maroh]


Graphic novel que deu origem ao – lindo – filme dirigido por Abdellatif Kechiche, Azul é a cor mais quente fala sobre o relacionamento amoroso entre duas garotas, Clémentine e Emma.

Garota comum, ainda estudante do liceu, Clém se descobre atraída por garotas. Tudo passa, então, a girar em torno do encantamento provocado pelo surgimento de Emma em sua vida. O medo e a reprovação que partem de si mesma a assombram; são, claramente, reflexos da visão limitada e conservadora dos pais, dos amigos (principalmente das amigas), enfim, da própria sociedade.

Sua história com Emma se transforma em um turbilhão de amor, desejo e conflitos – um dos quais atende por Sabine, a então companheira de Emma, além da não aceitação dos pais de Clémentine.

As ilustrações, simples mas atraentes, traduzem o tom ora melancólico ora desesperado da trama. Quase tudo aparece em matizes cinzentos; o azul dos cabelos e do olhar de Emma é a única cor “verdadeira” ali. Tudo mais que é importante na trama pega emprestado a mesma coloração azul. Nenhuma outra cor, apenas o azul; e é suficiente.

Com foco no início do romance entre as duas personagens e, sobretudo, nas descobertas de Clémentine (ainda uma adolescente) pelos caminhos tortuosos do amor, a trama mostra simplicidade e uma espécie de inocência bonita e um tanto frágil. A narração acontece através do diário de Clém; as memórias revelam a confusão que se instala em sua mente juvenil ao ver-se atraída por outra menina, a intensidade do amor por Emma, a tentativa frustrada de namorar um garoto...

Delicada e juvenil, a história só peca por não aprofundar na maturidade do relacionamento das protagonistas, nos anos que seguem o caloroso início. Mas, talvez, chego a desconfiar que esse pensamento esteja condicionado ao fato de ter visto e me maravilhado com o filme muito antes da leitura. Vai saber.

Provavelmente a dúvida de muitos: livro e filme são bem diferentes. Ambos lindos à sua maneira, valem cada segundo da atenção do leitor/espectador. Trabalho admirável, com direção de Abdellatif Kechiche, a adaptação - ainda que livre - não conseguiria ser mais perfeita.

A mensagem que traz a graphic novel vale para a vida: nossa existência é curta e já é difícil o bastante. Portanto, amar verdadeiramente, sem preconceitos nem distinções, é o que realmente importa. Seguir o coração e aproveitar o tempo que nos resta.

Em poucas palavras, Azul é a cor mais quente é uma trágica história sobre a descoberta do amor. Um amor que habita os extremos e se torna inesquecível ao leitor, mesmo bem depois de virada a última página.

LI EM FRANCÊS


O reduzido volume de texto facilita a leitura. A linguagem é bastante informal; contudo, a presença de termos e expressões tipicamente adolescentes pode exigir aquela googlada básica para os nem tão familiarizados com a cultura francesa.

Edição lida: Le bleu est une couleur chaude, de Julie Maroh, Éditions Glénat, 2013.
Onde comprar em francês: Livraria Cultura | Book Depository

LEIA PORQUE...
Tudo no livro é mostrado de um jeito bonito, meigo. Mesmo nas passagens que envolvem sexo, a sensualidade divide a cena com a doçura. Leitura obrigatória para aqueles que acreditam no amor, acima de tudo.

DA EXPERIÊNCIA...
Se já tinha me apaixonado pelo filme, fiquei duplamente apaixonada depois que li a HQ. Como mencionei, as duas histórias tomam rumos bastante distintos e eu gostei disso – aliás, não acredito que algum leitor não vá curtir. Definitivamente, uma história muito bonita, tanto no livro como no filme.

FEZ PENSAR EM...
Não pude deixar de me lembrar do incrível Minha Querida Sputnik, do Haruki Murakami. Nele, uma das protagonistas, recém-saída da adolescência, se apaixona por outra mulher. Apesar de não haver qualquer outra semelhança entre os dois livros, o sentimento de amor cristalino é um ponto em comum, definitivamente.

E também me fez lembrar do filme mais perfeito: Canções de Amor (Les Chansons d'Amour), dirigido por Christophe Honoré. Musical francês que aborda o relacionamento amoroso hétero e homo, mas, sobretudo, humano.

Título: Azul é a cor mais quente
Título original: Le bleu est une couleur chaude
Autor(a): Julie Maroh
Tradução: Marcelo Mori
Editora: Martins Fontes
Edição: 2013
Ano da obra: 2010
Páginas: 160
Onde comprar: Saraiva | Livraria Cultura | Livraria da Travessa